{"id":398,"date":"2017-11-13T21:08:19","date_gmt":"2017-11-13T23:08:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/?p=398"},"modified":"2018-01-25T20:52:03","modified_gmt":"2018-01-25T22:52:03","slug":"alto-impacto-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/alto-impacto-ambiental\/","title":{"rendered":"Alto impacto ambiental, baixo retorno financeiro: o problema da agricultura na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><b>por Rachael Garrett*<\/b><\/p>\n<p>Dos discursos pol\u00edticos aos posts em redes sociais, \u00e9 comum justificar o desmatamento na Amaz\u00f4nia pela necessidade urgente e inevit\u00e1vel de desenvolvimento econ\u00f4mico e gera\u00e7\u00e3o de riqueza. Mas o que acontece quando estudos cient\u00edficos demonstram que a maior parte da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola na regi\u00e3o n\u00e3o gera riqueza? Muitos pequenos e m\u00e9dios agricultores da zona rural amaz\u00f4nica n\u00e3o saem do estado de pobreza por apostarem insistentemente em atividades rudimentares marcadas por baixos rendimentos, embora muito prejudiciais ao meio ambiente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A falta de uso de tecnologia leva ao decl\u00ednio da qualidade da terra, frequentemente resultando em seu abandono. Tal ciclo vicioso representa um problema grave, pois o abandono das terras leva os agricultores a desmatar novas \u00e1reas para seguir produzindo. Dado o alto impacto ambiental e o baixo rendimento econ\u00f4mico, os pesquisadores t\u00eam procurado entender por que a pecu\u00e1ria ainda domina a regi\u00e3o. Recentemente, publiquei um <a href=\"https:\/\/www.ecologyandsociety.org\/vol22\/iss3\/art27\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">artigo<\/a> cient\u00edfico na revista\u00a0<em>Ecology and Society<\/em>\u00a0demonstrando que parte da resposta est\u00e1 em uma melhor compreens\u00e3o das necessidades e aspira\u00e7\u00f5es dos agricultores. Uma coisa \u00e9 certa: n\u00e3o se trata apenas de dinheiro.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Durante uma d\u00e9cada, entrevistei agricultores da Amaz\u00f4nia brasileira sobre os fatores que influenciam sua renda. Se pudesse compreender o que limita a rentabilidade dos pequenos produtores e a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas mais sustent\u00e1veis, poderia desenvolver recomenda\u00e7\u00f5es para pol\u00edticas p\u00fablicas capazes de promover a inser\u00e7\u00e3o de atividades mais rent\u00e1veis e menos destrutivas do ponto de vista ambiental. Ao longo do tempo, tornou-se evidente que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o retorno econ\u00f4mico que explica suas escolhas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para entender quais outros fatores exercem influ\u00eancia, uma equipe internacional, formada por cientistas da Embrapa Amaz\u00f4nia Oriental, Universidade Federal do ABC e outras institui\u00e7\u00f5es, coletou dados abrangentes de mais de 600 lares rurais no leste e sudeste do Par\u00e1, em uma pesquisa que integra o esfor\u00e7o da Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel (RAS) para promover a conserva\u00e7\u00e3o e o uso mais sustent\u00e1vel do solo na regi\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os dados levantados inclu\u00edram aspectos sociais e ambientais das fam\u00edlias, como a caracter\u00edstica das propriedades, ativos, redes sociais e de conhecimento e bem-estar social, \u00edndice usado para avaliar o qu\u00e3o felizes eles sentem que s\u00e3o. Primeiro, analisamos a varia\u00e7\u00e3o da renda em diferentes sistemas agr\u00edcolas para descobrir se havia melhores oportunidades de ganho j\u00e1 presentes na regi\u00e3o. Em seguida, procuramos identificar as raz\u00f5es que levam alguns agricultores a optarem por usos da terra de baixa rentabilidade, em detrimento de melhores op\u00e7\u00f5es e como essas escolhas influenciam o seu bem-estar.<\/p>\n<h6><figure class=\"stag-section stag-image stag-image--no-filter stag-image--center\"><img src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2017\/11\/ambiental-grafico-renda-1.gif\" alt=\"\"><\/figure><br \/>\nFonte: <a href=\"https:\/\/www.ecologyandsociety.org\/vol22\/iss3\/art27\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><i>Ecology and Society, 2017<\/i><\/a><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A pesquisa descobriu que 75% das fam\u00edlias na \u00e1rea do estudo ganhavam menos do que dez mil d\u00f3lares por ano. Que a pecu\u00e1ria \u00e9 uma atividade de baixa renda, j\u00e1 sab\u00edamos, mas foi chocante descobrir que, nas propriedades onde essa atividade \u00e9 predominante, a renda anual n\u00e3o ultrapassa os 416 reais por hectare. A soja, apesar de ser um produto valioso para a exporta\u00e7\u00e3o, proporciona uma receita de modestos 1,6 mil reais anuais por hectare. Por outro lado, os agricultores envolvidos na produ\u00e7\u00e3o de frutas e horticultura atingem ganhos de mais de 5,5 mil reais por hectare \u2013 12 vezes mais do que os pecuaristas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por meio de modelos estat\u00edsticos de comportamento dos fazendeiros, foi poss\u00edvel concluir que os agricultores n\u00e3o estavam adotando atividades geradoras de melhor renda em fun\u00e7\u00e3o da falta de acesso aos mercados externos\u00a0e\u00a0da\u00a0aus\u00eancia de infraestrutura adequada (por exemplo\u00a0estradas\u00a0e\u00a0transporte refrigerado) para o escoamento da produ\u00e7\u00e3o. Surpreendente foi descobrir a\u00a0falta de conex\u00e3o\u00a0entre a renda das propriedades e a felicidade das fam\u00edlias. Em vez de ganhar dinheiro, os agricultores priorizam (o que entendem por) seguran\u00e7a e qualidade de vida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eles privilegiam pr\u00e1ticas nas quais s\u00e3o experientes e que representam as tradi\u00e7\u00f5es de suas fam\u00edlias. Evitam o que entendem como complexo e incerto, dando prefer\u00eancia \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o de atividades conhecidas, mesmo com retorno financeiro mais baixo e ainda que suas a\u00e7\u00f5es contribuam para a degrada\u00e7\u00e3o da terra e para o desmatamento. As motiva\u00e7\u00f5es que influenciam o comportamento dos produtores est\u00e1 completamente ausente de estudos e discuss\u00f5es sobre como reduzir o desmatamento na Amaz\u00f4nia e, ao mesmo tempo, promover a qualidade de vida das pessoas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nos \u00faltimos 15 anos, o governo brasileiro forneceu recursos substanciais para combater o desmatamento na Amaz\u00f4nia, promoveu novas pesquisas e liberou incentivos financeiros para impulsionar pr\u00e1ticas mais sustent\u00e1veis. Mas \u00e9 improv\u00e1vel que um foco cont\u00ednuo em linhas de cr\u00e9dito subsidiado para os agricultores resolva a pobreza e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental. Essas a\u00e7\u00f5es n\u00e3o atendem \u00e0s principais reivindica\u00e7\u00f5es dos produtores, que n\u00e3o s\u00e3o monet\u00e1rias, nem promovem a mudan\u00e7a das barreiras reais \u2013 a falta de infraestrutura adequada para pr\u00e1ticas mais sustent\u00e1veis e culturas de maior valor.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 urgente repensar radicalmente a pol\u00edtica agr\u00edcola na Amaz\u00f4nia. As solu\u00e7\u00f5es promissoras para pequenas propriedades, como a produ\u00e7\u00e3o de frutas de alto valor comercial, permanecer\u00e3o inacess\u00edveis se o acesso a mercados distantes n\u00e3o for melhorado por meio de investimentos em processamento, armazenamento e infraestrutura de mercado. Para afastar efetivamente os pecuaristas do modelo extensivo e insustent\u00e1vel e faz\u00ea-los migrar para um uso mais rent\u00e1vel da terra, as futuras pol\u00edticas p\u00fablicas precisar\u00e3o identificar e discriminar as fam\u00edlias com base em um conjunto mais amplo de informa\u00e7\u00f5es, tais como caracter\u00edsticas culturais e aspira\u00e7\u00f5es pessoais. Essa an\u00e1lise mais refinada \u00e9 fundamental para combinar melhor as solu\u00e7\u00f5es propostas contra o desmatamento com o que realmente faz as fam\u00edlias rurais felizes.<\/p>\n<hr class=\"stag-divider stag-divider--dotted\" \/>\n<h6>*Rachael Garret \u00e9 professora-assistente da Universidade de Boston (EUA) e integrante da Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel (RAS). Trabalha na Amaz\u00f4nia h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, com foco em desenvolvimento sustent\u00e1vel, agricultura e conserva\u00e7\u00e3o tropical. Rachael possui doutorado em Meio Ambiente e Recursos, pela Universidade de Stanford, e mestrado em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica pela Universidade de Columbia.<\/h6>\n<h6>Este artigo foi editado pela jornalista Juliana Tinoco, colaboradora freelancer da Ambiental Media. Juliana tem mais de uma d\u00e9cada de experi\u00eancia e possui mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE).<\/h6>\n<div>\n<hr class=\"stag-divider stag-divider--dotted\" \/>\n<p><span style=\"color: #999999;\"><b>Como este artigo foi produzido:<br \/>\n<\/b>O texto \u00e9 fruto de uma parceria entre a Rede Amaz\u00f4nia Sustent\u00e1vel (RAS) e a Ambiental Media, e foi publicado pelo jornal Valor Econ\u00f4mico no dia 10 de Novembro de 2017. Este conte\u00fado pode ser replicado gratuitamente sob os cr\u00e9ditos da Ambiental Media e da autora.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #999999;\">Os artigos publicados no site da Ambiental s\u00e3o de autoria de cientistas de diversas institui\u00e7\u00f5es. Todos os autores s\u00e3o colaboradores eventuais e sua opini\u00f5es n\u00e3o representam as opini\u00f5es da Ambiental Media. Para ter seu artigo publicado neste espa\u00e7o, escreva para\u00a0<a style=\"color: #999999;\" href=\"mailto:weare@ambiental.media\">weare@ambiental.media.<\/a><\/span><br \/>\n<i><\/i><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>por Rachael Garrett* Dos discursos pol\u00edticos aos posts em redes sociais, \u00e9 comum justificar o desmatamento na Amaz\u00f4nia pela necessidade urgente e inevit\u00e1vel de desenvolvimento&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":7,"featured_media":408,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[34],"tags":[16,24,19,18,20,21,23,17,22],"wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/398"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/7"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=398"}],"version-history":[{"count":55,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/398\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":972,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/398\/revisions\/972"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/408"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=398"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=398"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=398"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}