{"id":830,"date":"2019-10-16T07:13:51","date_gmt":"2019-10-16T10:13:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/?p=830"},"modified":"2019-10-27T19:32:40","modified_gmt":"2019-10-27T21:32:40","slug":"genero-um-conceito-mal-falado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/genero-um-conceito-mal-falado\/","title":{"rendered":"G\u00eanero: um conceito mal falado"},"content":{"rendered":"\n<h2>O atual governo federal declarou guerra \u00e0 ideologia de g\u00eanero, com frentes de batalha que v\u00e3o do ensino b\u00e1sico \u00e0 pol\u00edtica externa, mas a vis\u00e3o que as ci\u00eancias humanas tem do tema \u00e9 profundamente distinta do embate consagrado nas redes sociais<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-cyan-bluish-gray-color\"><strong>S\u00e9rgio Carrara<\/strong><br><strong>Isadora Lins Fran\u00e7a<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em junho, por decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal (STF), o Brasil se tornou o 43\u00ba pa\u00eds a criminalizar a homofobia. Em seu voto, o ministro Celso de Mello chamou a vis\u00e3o de mundo que pretende determinar os papeis sociais de homens e mulheres a partir de suas diferen\u00e7as biol\u00f3gicas de \u201cideia artificialmente constru\u00edda\u201d. A rea\u00e7\u00e3o imediata do atual presidente Jair Bolsonaro, ao chamar a decis\u00e3o de equivocada e lamentar a aus\u00eancia de um ministro evang\u00e9lico no STF, d\u00e1 a medida exata dos desafios \u00e0 frente no trato com as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade. At\u00e9 mesmo os diplomatas brasileiros est\u00e3o oficialmente instru\u00eddos pelo Itamaraty a reproduzirem o entendimento do atual governo, para quem g\u00eanero \u00e9 sin\u00f4nimo de sexo biol\u00f3gico: feminino ou masculino \u2013 ainda que a ci\u00eancia demonstre o contr\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio j\u00e1 estava claro desde o discurso de posse no Congresso Nacional, quando o presidente Jair Bolsonaro declarou que seu governo iria unir o povo, valorizar a fam\u00edlia, respeitar as religi\u00f5es, a tradi\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3 e que, para isso, combateria a ideologia de g\u00eanero. Poucos dias depois, Damares Alves, ministra da Mulher, Fam\u00edlia e Direitos Humanos, surgiu em v\u00eddeo afirmando que se tratava de uma nova era no Brasil, em que menino veste azul e menina veste rosa. Questionada, a ministra disse \u00e0 imprensa tratar-se de uma met\u00e1fora contra a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d. S\u00f3 tem um problema: nesses termos, tal ideologia jamais existiu.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que existiria uma ideologia de g\u00eanero&nbsp; foi gestada no \u00e2mbito da Igreja Cat\u00f3lica durante a d\u00e9cada de 1990, em rea\u00e7\u00e3o ao uso do conceito de g\u00eanero em confer\u00eancias internacionais de mulheres. Desde ent\u00e3o, essa no\u00e7\u00e3o passou a permear nosso contexto pol\u00edtico em diferentes momentos, sendo particularmente acionada em momentos eleitorais. Durante a campanha presidencial de 2018, novamente a suposta&nbsp; ideologia de g\u00eanero foi trazida ao centro do debate, associada a not\u00edcias falsas segundo as quaiso candidato \u00e0 presid\u00eancia Fernando Haddad, enquanto prefeito de S\u00e3o Paulo, teria distribu\u00eddo um \u201ckit gay\u201d e at\u00e9 mesmo uma mamadeira f\u00e1lica para crian\u00e7as em escolas p\u00fablicas.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Afirmou-se, ent\u00e3o, a exist\u00eancia de uma esp\u00e9cie de doutrina cujo objetivo seria orientar crian\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua sexualidade e ensin\u00e1-las a n\u00e3o se identificarem como meninas ou meninos. Apesar de inver\u00eddica, a ideia provocou p\u00e2nico. Instalado o medo, parte da popula\u00e7\u00e3o relacionou o conceito a uma imposi\u00e7\u00e3o que desvirtuaria crian\u00e7as. Tais rea\u00e7\u00f5es \u2013 incluindo as do pr\u00f3prio presidente eleito e de autoridades do governo \u2013 persistem e t\u00eam sido recebidas pela comunidade cient\u00edfica com perplexidade e preocupa\u00e7\u00e3o, sobretudo por estarem pautando pol\u00edticas p\u00fablicas. No Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o e em muitos planos municipais e estaduais suprimiu-se, por exemplo, g\u00eanero como t\u00f3pico a ser abordado em sala de aula ou na forma\u00e7\u00e3o de professores.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Para defender as crian\u00e7as da suposta ideologia, pessoas comuns e pol\u00edticos adotaram discursos que restringem as discuss\u00f5es relativas a sexo e g\u00eanero a uma perspectiva normativa. Dentro dessa concep\u00e7\u00e3o, g\u00eanero seria imut\u00e1vel: nasceu menina \u00e9 menina; nasceu menino \u00e9 menino. Busca-se tamb\u00e9m refor\u00e7ar estreitas conven\u00e7\u00f5es sociais e culturais relacionadas a homens e mulheres \u2013meninas devem vestir rosa, meninos devem vestir azul. Da mesma forma, coloca-se como norma \u00fanica o relacionamento afetivo e sexual com pessoas do sexo oposto.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aqui uma diferen\u00e7a fundamental. Enquanto os inimigos da suposta ideologia de g\u00eanero concentram-se em defini\u00e7\u00f5es r\u00edgidas em rela\u00e7\u00e3o a g\u00eanero e sexualidade, a perspectiva cient\u00edfica tende a ampliar esses limites, saindo de uma postura impositiva. Na Antropologia, elabora\u00e7\u00f5es conceituais constru\u00eddas a partir de conhecimento cient\u00edfico, desenvolvido em mais de um s\u00e9culo sobre diferentes realidades sociais, levaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o existem atributos de sexo, sexualidade e g\u00eanero essenciais, imut\u00e1veis e universalmente v\u00e1lidos.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o sobre g\u00eanero e sexualidade na comunidade cient\u00edfica constata que, em vez de ser mera quest\u00e3o fisiol\u00f3gica, os significados de masculino e feminino e as conven\u00e7\u00f5es sobre sexualidade s\u00e3o resultado de complexos processos hist\u00f3ricos, sociais e culturais. Tais processos s\u00e3o fruto de articula\u00e7\u00f5es constantes de normas, conven\u00e7\u00f5es e regula\u00e7\u00f5es, que variam segundo as sociedades. Em outras palavras, sempre houve diferentes modos de ser homem e de ser mulher e significados distintos sobre masculino e feminino ao redor do mundo. Acontece o mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s sexualidades.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Em 1935, a antrop\u00f3loga norte-americana Margaret Mead atestou que o comportamento de mulheres e homens varia conforme a sociedade em que se inserem. Seu estudo, feito na regi\u00e3o asi\u00e1tica da Nova Guin\u00e9, mostra que, entre o povo Arapesh, homens e mulheres tinham car\u00e1ter mais d\u00f3cil; entre os Mundugumor, ambos eram agressivos; e, por fim, entre os Tchambuli, as mulheres eram mais dominadoras e os homens mais passivos.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Na sociedade brasileira, por sua vez, acreditou-se por muito tempo que as mulheres seriam por natureza menos inteligentes e racionais que os homens e, por isso, n\u00e3o podiam votar. Apenas a partir de 1932, ap\u00f3s intensa mobiliza\u00e7\u00e3o feminista, as mulheres conquistaram esse direito, ainda assim facultativo para as que n\u00e3o exerciam atividade remunerada. A igualdade entre os votos, obrigat\u00f3rio para homens e mulheres, s\u00f3 entrou no C\u00f3digo Eleitoral de 1965.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Somente em 1879, as mulheres brasileiras obtiveram o direito a ingressar no ensino superior e, quando o fizeram, houve muito preconceito. Evelina Bloem Souto, por exemplo, primeira mulher a frequentar o curso de Engenharia Civil da Escola de Engenharia de S\u00e3o Carlos, em 1957, foi obrigada a vestir roupas masculinas e a desenhar barba e bigode em seu rosto para realizar uma visita t\u00e9cnica. Em rela\u00e7\u00e3o ao vestu\u00e1rio, ali\u00e1s, vale lembrar que a conven\u00e7\u00e3o social pela qual meninos vestem azul e meninas vestem rosa surgiu na Europa e nos Estados Unidos apenas no s\u00e9culo XX como estrat\u00e9gia de mercado \u2013 publicit\u00e1rios e lojas de roupas consideravam rosa a cor ideal para os meninos, tida como mais forte.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Explorando a diversidade de condutas e valores sociais relativos \u00e0 masculinidade e feminilidade, os estudos de g\u00eanero t\u00eam contribu\u00eddo para a compreens\u00e3o de s\u00e9rios e complexos problemas sociais como a viol\u00eancia contra a mulher (\u00e0s vezes denominada de viol\u00eancia de g\u00eanero), a discrimina\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia contra pessoas LGBT, os padr\u00f5es de transmiss\u00e3o de doen\u00e7as sexualmente transmiss\u00edveis, a viol\u00eancia sexual, as desigualdades entre homens e mulheres no mercado de trabalho, entre outros.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e1rea da Educa\u00e7\u00e3o, estudos t\u00eam registrado diferentes express\u00f5es relacionadas a g\u00eanero e \u00e0 sexualidade nas salas de aula e \u00e0 possibilidade de que essas express\u00f5es sejam vividas sem viol\u00eancia, de forma a n\u00e3o atentar contra os limites \u00e9ticos e legais que regem a vida social. Isso auxilia educadores a compreenderem a import\u00e2ncia do acolhimento da diversidade no espa\u00e7o escolar, assim como a lidarem com desafios como a gravidez n\u00e3o planejada e a viol\u00eancia sexual contra crian\u00e7as e adolescentes.&nbsp;&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Os estudos de g\u00eanero t\u00eam operado em um horizonte que valoriza a defesa da pluralidade, dos direitos fundamentais, em especial a dignidade da pessoa humana, a cidadania e a paz. A liberdade de pensamento, ensino e pesquisa nessa \u00e1rea \u00e9 fundamental para que os pesquisadores continuem contribuindo com o desenvolvimento cient\u00edfico e \u00e9tico do pa\u00eds.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p>Com s\u00f3lido conjunto de dados de pesquisa, os estudos de g\u00eanero t\u00eam contribu\u00eddo para a cr\u00edtica sistem\u00e1tica a certas concep\u00e7\u00f5es, convic\u00e7\u00f5es ou cren\u00e7as sem verifica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Ironicamente, discursos que tomam como universais e naturais concep\u00e7\u00f5es particulares sobre o que \u00e9 ser homem ou mulher poderiam ser, eles sim, chamados de \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, no sentido de defenderem pontos de vista restritos como verdades absolutas e indiscut\u00edveis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><strong><em>S\u00e9rgio Carrara<\/em><\/strong><em> \u00e9 cientista social, doutor em Antropologia Social pelo Museu Nacional\/UFRJ e professor adjunto do Instituto de Medicina Social\/UERJ. \u00c9 tamb\u00e9m vice-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA), integra o seu Comit\u00ea de G\u00eanero e Sexualidade e o Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos\/UERJ.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong><em>Isadora Lins Fran\u00e7a<\/em><\/strong><em> \u00e9 historiadora, doutora em Ci\u00eancias Sociais pelo PPGCS\/Unicamp e professora adjunta do Departamento de Antropologia\/Unicamp. \u00c9 tamb\u00e9m integrante do Comit\u00ea de G\u00eanero e Sexualidade da ABA e pesquisadora colaboradora do N\u00facleo de Estudos de G\u00eanero Pagu\/Unicamp.<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h6>Como este artigo foi produzido:O texto \u00e9 fruto de uma parceria entre a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Antropologia (ABA) e a Ambiental Media, e pode ser replicado gratuitamente sob os cr\u00e9ditos da Ambiental e da autora.<\/h6>\n\n\n\n<h6>Os artigos publicados no site da Ambiental s\u00e3o de autoria de cientistas de diversas institui\u00e7\u00f5es. 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