{"id":873,"date":"2021-02-15T18:15:00","date_gmt":"2021-02-15T21:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/?p=873"},"modified":"2021-02-24T19:27:07","modified_gmt":"2021-02-24T22:27:07","slug":"na-luta-do-amazonas-com-o-atlantico-comunidades-no-amapa-veem-as-ilhas-do-bailique-esfacelarem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/na-luta-do-amazonas-com-o-atlantico-comunidades-no-amapa-veem-as-ilhas-do-bailique-esfacelarem\/","title":{"rendered":"Na luta do Amazonas com o Atl\u00e2ntico, comunidades no Amap\u00e1 veem as ilhas do Bailique esfacelarem"},"content":{"rendered":"\n<h2>A constru\u00e7\u00e3o de usinas no rio Araguari, al\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o provocada pela cria\u00e7\u00e3o de b\u00fafalos, podem estar por tr\u00e1s do crescente avan\u00e7o do mar sobre as ilhas<\/h2>\n\n\n\n<p class=\"has-small-font-size\"><em>*reportagem publicada em parceria com a <a href=\"https:\/\/brasil.mongabay.com\/2020\/09\/bailique-por-que-estas-ilhas-na-foz-do-amazonas-estao-se-esfacelando\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mongabay<\/a><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-cyan-bluish-gray-color has-text-color\"><strong>Texto <strong>Lu\u00eds Patriani<\/strong><\/strong><br><strong>Fotos <strong><strong>Maur\u00edcio de Paiva<\/strong><\/strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Encravado na foz do Rio Amazonas, o Arquip\u00e9lago do Bailique, no Amap\u00e1, \u00e0s margens do Oceano Atl\u00e2ntico, \u00e9 formado por oito ilhas estuarinas onde vivem em torno de 13 mil pessoas integradas \u00e0 din\u00e2mica da floresta de v\u00e1rzea \u00e0 sua volta. Mas o equil\u00edbrio estabelecido por essas comunidades com o meio ambiente, no qual pesca artesanal e manejo sustent\u00e1vel do a\u00e7a\u00ed s\u00e3o as principais fontes econ\u00f4micas, vem sofrendo abalos profundos em um processo de eros\u00e3o e desbarrancamentos que acontecem de forma progressiva.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conhecida localmente como fen\u00f4meno das Terras Ca\u00eddas, a destrui\u00e7\u00e3o atinge casas, escolas, rede el\u00e9trica, esta\u00e7\u00f5es de tratamento de \u00e1gua e a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia dos ribeirinhos e do ecossistema que habitam desde o s\u00e9culo 19. Alguns anos atr\u00e1s, mais precisamente em 2013, a pororoca do Rio Araguari, cuja foz fica ao norte do arquip\u00e9lago, acabou. O estrondoso choque de for\u00e7as das \u00e1guas do mar com o rio n\u00e3o mais acontece desde ent\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A desembocadura do Araguari estava em processo avan\u00e7ado de fechamento por conta de um contundente assoreamento, e a perda de vaz\u00e3o fez com que sua pororoca, considerada uma das maiores do mundo, passasse a entrar por um rio secund\u00e1rio. O epis\u00f3dio ganhou destaque em reportagens, mas foi s\u00f3 o primeiro cap\u00edtulo de uma s\u00e9rie de eventos que vieram a seguir. Um futuro incerto ainda paira sobre um dos maiores desastres ambientais do estado do Amap\u00e1.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Rio Araguari, cuja bacia hidrogr\u00e1fica ocupa um ter\u00e7o do estado e \u00e9 a maior do Amap\u00e1, teve sua vaz\u00e3o totalmente capturada pela bacia Rio Amazonas. Os 600 metros que margeiam a desembocadura, antes palco da pororoca, viraram pasto. Agora, as terras s\u00e3o disputadas por criadores de b\u00fafalos, que j\u00e1 cercaram a \u00e1rea \u2014 p\u00fablica, por sinal \u2014 na tentativa de reivindicar a posse e aumentar suas propriedades.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-882\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-03.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Apesar de espor\u00e1dico, o abate de b\u00fafalos no Bailique ajuda a compor o prato de alguns ribeirinhos, assim como o consumo de peixes e o a\u00e7a\u00ed. A carne tem cerca de 20 vezes menos gordura e colesterol em compara\u00e7\u00e3o \u00e0 bovina, al\u00e9m de ser mais macia.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>Interfer\u00eancia humana acelerou o processo de eros\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Valdenira Santos, pesquisadora do Instituto de Pesquisas Cient\u00edficas e Tecnol\u00f3gicas do Estado do Amap\u00e1 (Iepa) e professora da Universidade Federal do Amap\u00e1 (Unifap), os respons\u00e1veis pelo desvio da \u00e1gua foram dois igarap\u00e9s. Chamados de Gurijuba e Urucurituba, eles foram crescendo de tamanho e profundidade a ponto de conectarem as bacias hidrogr\u00e1ficas do Amazonas e do Araguari \u2014 at\u00e9 ent\u00e3o incomunic\u00e1veis, exceto no per\u00edodo das cheias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs riachos foram expandidos em uma superposi\u00e7\u00e3o de eventos dentro da combina\u00e7\u00e3o de acontecimentos naturais e a\u00e7\u00f5es antr\u00f3picas\u201d, explica a pesquisadora, enumerando os fatores por tr\u00e1s da ocorr\u00eancia: \u201cAlagamentos ocasionados pelas cheias dos rios Amazonas e Araguari, as grandes mar\u00e9s de equin\u00f3cio, as fortes chuvas intensificadas pelo La Ni\u00f1a [fen\u00f4meno de esfriamento das \u00e1guas do Oceano Pac\u00edfico] e in\u00fameras valas abertas por pisoteio dos b\u00fafalos e pelos pr\u00f3prios fazendeiros da regi\u00e3o. Tudo isso se interconecta no per\u00edodo das inunda\u00e7\u00f5es e estas interven\u00e7\u00f5es humanas acabam por acelerar muito o processo, principalmente nos pequenos desn\u00edveis na plan\u00edcie em que o escoamento da \u00e1gua progride ainda mais\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image.jpeg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-1024x683.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-920\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-1024x683.jpeg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-300x200.jpeg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-768x512.jpeg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Em uma comunidade da Vila Progresso, a festa comunit\u00e1ria religiosa foi prejudicada pela falta de luz. Alguns postes, derrubados pela eros\u00e3o, deixaram a redondeza sem energia el\u00e9trica.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Um destes canais, o Varadouro de Urucurituba, chega a ter 300 metros de largura entre as margens no ponto onde encontra o Rio Araguari, drenando 70% do fluxo de suas \u00e1guas. Os outros 30% s\u00e3o escoados antes pelo Canal do Gurijuba, localizado 60 quil\u00f4metros acima. Ap\u00f3s ganhar pot\u00eancia e vaz\u00e3o de 8 mil metros c\u00fabicos por segundo com as \u00e1guas sequestradas do Araguari, o Urucurituba redistribui o fluxo para outro afluente, o Canal da Cubana, que passa em frente \u00e0s comunidades de Vila Progresso e Maced\u00f4nia, onde a eros\u00e3o avan\u00e7a em uma m\u00e9dia de 10 metros por ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Morador da Vila Progresso, o ex-l\u00edder comunit\u00e1rio Alcindo Bajo Farias, o Chino\u00e1, diz que muitos moradores da comunidade foram embora e se mudaram para a capital Macap\u00e1, a 180 quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia em uma viagem de 12 horas de barco subindo o Rio Amazonas. \u201cVi muita casa indo embora pelo canal. Tem morador que j\u00e1 reconstruiu mais de tr\u00eas vezes&#8221;, conta Chino\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo ele, a Escola Bosque, que \u00e9 a \u00fanica do Bailique com ensino m\u00e9dio, perdeu espa\u00e7o e teve quase a metade de sua \u00e1rea destru\u00edda. A escola \u00e9 tida como um modelo inovador de educa\u00e7\u00e3o na floresta, em que a natureza \u00e9 base para o desenvolvimento dos conte\u00fados em sala de aula. Outras duas escolas no arquip\u00e9lago tamb\u00e9m correm o risco de desabar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A falta de eletricidade tamb\u00e9m \u00e9 um grande problema: &#8220;Se tivermos dez dias de energia por m\u00eas \u00e9 muito. Os postes caem com a eros\u00e3o e a empresa respons\u00e1vel tem poucos funcion\u00e1rios para reinstalar. Sem luz, n\u00e3o conseguimos mais guardar o peixe e o a\u00e7a\u00ed na geladeira\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-884\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-01.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Depois de perder duas casas para a eros\u00e3o, o pescador Nilson Marques da Silva e sua fam\u00edlia ergueram a terceira morada na comunidade Para\u00edso.<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>3 mil anos em cinco d\u00e9cadas&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com d\u00e9cadas de pescaria nas costas, Seu Chino\u00e1 diz que a velocidade do Rio Araguari come\u00e7ou a diminuir com a constru\u00e7\u00e3o da Usina Hidrel\u00e9trica Coaracy Nunes, em 1976 , a primeira usina a produzir energia el\u00e9trica na Amaz\u00f4nia. Quando a usina Ferreira Gomes foi feita, em 2014, a vaz\u00e3o praticamente parou e n\u00e3o conseguiu mais retirar a lama deixada pela pororoca. Tr\u00eas anos depois, a p\u00e1 de cal no leito do Araguari veio com a terceira hidrel\u00e9trica, Cachoeira Caldeir\u00e3o, em 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>Inconformado com a situa\u00e7\u00e3o de abandono, o antigo morador conta que agora o mar entra no arquip\u00e9lago pelo Rio Marinheiro e a \u00e1gua chega salgada nas comunidades ao sul. \u201cO sistema de tratamento n\u00e3o d\u00e1 conta de abastecer toda a popula\u00e7\u00e3o e o governo diz que n\u00e3o tem recursos para ampliar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A Companhia de \u00c1gua e Esgoto do Amap\u00e1 (Caesa), por meio do seu diretor t\u00e9cnico operacional, Jo\u00e3o Paulo Monteiro, informou que a empresa tem quatro esta\u00e7\u00f5es de tratamento que atendem as quatro principais comunidades do Bailique, equivalente a 60% da sua popula\u00e7\u00e3o. O restante mora em comunidades distantes e com poucas casas, o que, nas palavras dele, inviabiliza o investimento, uma vez que eles n\u00e3o arrecadam dinheiro com essa parcela da popula\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel fazer investimentos maiores quando os pesquisadores entenderem o fen\u00f4meno\u201d, disse \u00e0 Mongabay.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-877\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-08.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Na Vila Maced\u00f4nia, os desbarrancamentos est\u00e3o destruindo constru\u00e7\u00f5es e a dignidade dos moradores. A eros\u00e3o das margens do arquip\u00e9lago tem derrubado passarelas, resid\u00eancias, escolas, igrejas, com\u00e9rcios e postes de eletricidade.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br>O presidente da Associa\u00e7\u00e3o das Comunidades Tradicionais do Bailique (ACTB), Geova Alves, por sua vez, se divide entre o otimismo com as perspectivas de retorno financeiro para os moradores \u2014 a associa\u00e7\u00e3o foi contemplada como a primeira no Brasil a receber o certificado socioambiental de manejo do a\u00e7a\u00ed \u2014 e a preocupa\u00e7\u00e3o com a diminui\u00e7\u00e3o da pesca e as perdas de terra por conta dos desbarrancamentos. \u201cCom o fechamento do Araguari, os peixes de \u00e1gua doce est\u00e3o diminuindo muito aqui. Quanto ao a\u00e7a\u00ed, tem produtor que perdeu o a\u00e7aizal inteiro. A degrada\u00e7\u00e3o do solo aumentou muito nos \u00faltimos tr\u00eas anos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>O pescador Nilson Marques da Silva e a esposa&nbsp; Rosana Correa Quaresma, depois de perderem duas casas para a eros\u00e3o, vivem com a incerteza e o medo de morar sobre uma terra t\u00e3o inst\u00e1vel. \u201cA primeira casa custou para cair. Mas essa fecha\u00e7\u00e3o (sic) do Araguari ele veio abrir por aqui e a casa caiu. Da\u00ed fiz a segunda, mas a ca\u00edda veio atr\u00e1s. Foi muito r\u00e1pido. N\u00e3o chegou nem [a] seis meses. Derrubou tudinho. Eram onze horas da noite e n\u00e3o conseguimos salvar quase nada. Perdemos rede, malhadeira, m\u00e1quina de lavar roupa, motor. Se cair a terceira a gente t\u00e1 at\u00e9 resolvido a ir embora para Macap\u00e1. Ganhamos pouco e a madeira \u00e9 muito cara. N\u00e3o tem como fazer uma casa r\u00e1pido. Fica uma situa\u00e7\u00e3o ruim, muito ruim mesmo. E o nosso governo n\u00e3o espia pela gente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-890\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-05-1.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Exemplo de sistema agroflorestal, a comunidade de Arraiol foi a primeira no Brasil a receber o certificado socioambiental de manejo e qualidade do a\u00e7a\u00ed. A coleta familiar do fruto \u00e9 uma das principais fontes de renda das comunidades no arquip\u00e9lago.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo Valdenira Santos, a transforma\u00e7\u00e3o geomorfol\u00f3gica e hidrodin\u00e2mica nesta zona estuarina do norte do Brasil, em que desembocaduras de rios fecham, abrem e mudam de lugar, \u00e9 natural e acontece em uma escala de tempo de milhares a milh\u00f5es de anos. Como exemplo, ela cita um estu\u00e1rio acima do Rio Cunani, perto do Rio Oiapoque, que teve sua drenagem desativada em um processo geol\u00f3gico de ac\u00famulo de material h\u00e1 3 mil anos. Mas o que ocorre no Araguari est\u00e1 sendo acelerado de forma artificial. \u00c9 prov\u00e1vel que o sistema tenha colapsado em menos de 50 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas usinas hidrel\u00e9tricas em cinco d\u00e9cadas n\u00e3o pode ser ignorada\u201d, diz a professora da Unifap. \u201cEu participei de um conselho estadual de recursos h\u00eddricos e na \u00e9poca se discutia a constru\u00e7\u00e3o da usina do Caldeir\u00e3o. N\u00f3s alertamos para que n\u00e3o houvesse mais nenhuma interven\u00e7\u00e3o no rio, j\u00e1 enfraquecido, mas pedi demiss\u00e3o quando descobri que os estudos usados nos termos de refer\u00eancia ignoravam as din\u00e2micas e influ\u00eancias da zona costeira na intensa deposi\u00e7\u00e3o de sedimentos. Fizeram o projeto sem considerar que estavam em regi\u00e3o de estu\u00e1rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Alan Cunha, professor de Engenharia Civil na Unifap, diz que as usinas, al\u00e9m de reduzirem a amplitude do curso hidrol\u00f3gico, gerando eros\u00e3o e processos sedimentares, descumprem uma lei federal de 2000 que prev\u00ea responsabilidade a jusante das barragens, ou seja, rio abaixo: \u201cEstes empreendimentos s\u00f3 se preocupam com a parte montante da usina, com a seguran\u00e7a do seu reservat\u00f3rio, onde \u00e9 gerada a energia. O que acontece para baixo \u00e9 seja o que Deus quiser. Falta uma gest\u00e3o da bacia hidrogr\u00e1fica com todos os atores envolvidos. N\u00e3o tem pesquisa porque n\u00e3o tem monitoramento, que precisa de investimento para acontecer. E, se n\u00e3o tem monitoramento, n\u00e3o existe transpar\u00eancia na divulga\u00e7\u00e3o dos dados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurada pela Mongabay, a Companhia de Energia do Amap\u00e1 (CEA) n\u00e3o se manifestou at\u00e9 o fechamento desta reportagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-883\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-02.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Em meio \u00e0 instabilidade do solo e as incertezas sobre o futuro, moradores do Bailique vivem em um permanente processo de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"has-medium-font-size\"><br><strong>In\u00e9rcia do estado e quest\u00f5es fundi\u00e1rias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com tantos mandos e desmandos, os problemas do Araguari e do Arquip\u00e9lago do Bailique foram parar nos tribunais. No entanto, o promotor de Justi\u00e7a do Meio Ambiente do Estado do Amap\u00e1, Marcelo Moreira, \u00e9 cauteloso quanto a produ\u00e7\u00e3o de provas e responsabiliza\u00e7\u00e3o dos envolvidos. \u201cH\u00e1 uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica que a gente acompanha junto \u00e0 Justi\u00e7a Federal para sabermos qual foi a influ\u00eancia das hidrel\u00e9tricas e a bubalinocultura [cria\u00e7\u00e3o de b\u00fafalos] sem nenhum tipo de manejo adequado no assoreamento da foz do Araguari. O Iepa muito nos ajuda, mas eles trabalham com uma car\u00eancia de recursos e os estudos ainda s\u00e3o inconclusivos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Marcelo cita ainda a in\u00e9rcia do estado e quest\u00f5es fundi\u00e1rias como uma barreira. \u201cFalta um marco normativo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 bubalinocultura. O Conselho Estadual de Meio Ambiente tenta estabelecer uma regra sobre a pecu\u00e1ria, mas acaba deixando correr \u00e0 revelia. Al\u00e9m disso, quando tentamos responsabilizar alguma propriedade, encontramos dificuldade em identificar os donos, uma vez que h\u00e1 muita terra p\u00fablica ocupada.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Chefe da Reserva Biol\u00f3gica do Lago Piratuba, localizada na margem esquerda do Rio Araguari, Patr\u00edcia Pinha indica a presen\u00e7a dos b\u00fafalos como seu maior problema. \u201cA Rebio \u00e9 uma reserva de prote\u00e7\u00e3o integral, que \u00e9 a categoria mais restritiva entre as unidades de conserva\u00e7\u00e3o, mas temos aqui dentro 18 mil b\u00fafalos. Eles cavam valas que depois se alargam e aprofundam, e toda a \u00e1gua do campo de v\u00e1rzea vai sendo drenada para estas valas. As \u00e1reas \u00famidas, que antes ficavam alagadas o ano inteiro, mesmo na estiagem, agora s\u00f3 enchem no per\u00edodo da chuva. Mas, quando para de chover, tudo seca rapidamente, inclusive os lagos. Com a seca, come\u00e7aram a acontecer inc\u00eandios cada vez mais frequentes e dif\u00edceis de controlar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Combativa e questionadora, Patr\u00edcia aponta uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as muito desfavor\u00e1vel entre fazendeiros e ribeirinhos: \u201cA pecu\u00e1ria extensiva \u00e9 usada para ocupa\u00e7\u00e3o de terra p\u00fablica. E estas terras s\u00e3o ocupadas por poucas fam\u00edlias, ao passo que as comunidades tradicionais, que j\u00e1 sofrem com a eros\u00e3o de suas terras por conta da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, perdem ainda mais espa\u00e7o com a presen\u00e7a cada vez mais pr\u00f3xima dos grandes latifundi\u00e1rios\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized is-style-default\"><a href=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04.jpg\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-881\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/mauricio-paiva-ambiental-xibe-04.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><figcaption>Desconsolado, morador da Vila Progresso, a maior comunidade do Bailique, olha o rio Marinheiro, cuja correnteza, potencializada pelo desvio do fluxo do rio Araguari, levou parte de sua casa, m\u00f3veis e eletrodom\u00e9sticos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A constru\u00e7\u00e3o de usinas no rio Araguari, al\u00e9m da degrada\u00e7\u00e3o provocada pela cria\u00e7\u00e3o de b\u00fafalos, podem estar por tr\u00e1s do crescente avan\u00e7o do mar sobre&hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":10,"featured_media":885,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[34],"tags":[145,16],"wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/873"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/users\/10"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=873"}],"version-history":[{"count":26,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/873\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":922,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/873\/revisions\/922"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/media\/885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=873"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=873"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ambiental.media\/artigos\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=873"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}