O que acontece com as florestas incendiadas na Amazônia?

Foto: Flavio Forner

Cientistas explicam em detalhes as causas do fogo, seus efeitos devastadores e como as queimadas devem ser combatidas

Por Jos Barlow e Alexander C. Lees*

Imagine uma floresta tropical ao amanhecer – o dossel carregado de samambaias e orquídeas, troncos de árvores cobertos de musgos esponjosos e liquens, e a névoa da manhã sumindo lentamente ao nascer do sol. Embora haja combustível em todos os lugares, parece inimaginável que ecossistemas tão úmidos possam pegar fogo.

E o fato é que sem intervenção humana, eles não pegam. O registro de carvão indica incêndios pouco frequentes na Amazônia, mesmo durante os períodos de colonização humana pré-colombiana, e as oito mil ou mais espécies de árvores amazônicas não possuem nenhuma das adaptações evolutivas de fogo encontradas em savanas ou florestas boreais.

Mas com milhares de incêndios acontecendo na Amazônia atualmente, vale a pena observar como eles se comportam. Nesse contexto, focamos principalmente em “incêndios florestais” que avançam sobre a floresta em pé. O que eles significam para uma ecossistema que não evoluiu com fogo? E o que é necessário para evitar novos danos?

Ao contrário de muitas imagens circulando pela internet que retratam os dosséis em chamas, incêndios em florestas tropicais nunca antes perturbadas não causam o impacto visual retratado nessas imagens: as chamas avançam apenas de 200 a 300 metros por dia e raramente ultrapassam os 30 cm de altura, queimando apenas folhas secas e madeira caída.

Fogo rasteiro queima lentamente em uma área de floresta primária na Amazônia brasileira. Crédito: Jos Barlow

A maioria dos animais com melhor capacidade de deslocamento é capaz de fugir. Se as equipes de brigadistas estiverem presentes, é possível cessar o fogo fazendo aceiros (área em que se elimina toda a vegetação seca do solo) relativamente estreitos. Trilhas de formigas cortadeiras, por exemplo, foram suficientes para impedir incêndios florestais em um experimento no sul da Amazônia.

Porém, a intensidade de um incêndio não é, necessariamente, um indicativo da sua gravidade. A falta de adaptação natural para lidar com incêndios florestais faz com que as espécies da floresta tropical sejam incrivelmente sensíveis. Mesmo um incêndio de baixa intensidade pode matar a metade das árvores. Enquanto árvores pequenas são mais suscetíveis em um primeiro momento, as maiores geralmente morrem nos anos seguintes, levando à uma eventual perda de mais da metade dos estoques de carbono da floresta. Essas árvores grandes são as que contêm mais carbono e o subsequente crescimento de espécies pioneiras não é uma compensação – uma vez queimadas, as florestas retêm 25% menos carbono do que as florestas não queimadas, mesmo após três décadas de crescimento.


O fogo se arrasta pelo chão da Floresta Amazônica. Foto: Jos Barlow

Com um impacto tão devastador nas árvores, não é surpreendente que animais e humanos dependentes da floresta também sejam afetados. Primatas de grande porte são menos abundantes em florestas queimadas e muitos pássaros que se alimentam predominantemente de insetos desaparecem por completo. Integrantes de comunidades da região, que usam as florestas como fonte de caça, materiais para construção e substâncias medicinais, perdem uma de suas mais importantes redes de segurança.


O pinto-do-mato-carijó é um pássaro incomum e pouco conhecido, que revira folhas para procurar insetos no sub-bosque da floresta. A espécie desaparece em florestas queimadas, pois os incêndios alteram seu habitat úmido. Foto: Alexander Lees

Tudo isso acontece quando uma floresta queima pela primeira vez. No entanto, a situação é muito diferente quando as florestas sofrem incêndios recorrentes. Isso porque as árvores mortas anteriormente viram combustível para uma verdadeira fogueira: uma área cheia de lenha seca sob um dossel aberto. A altura das chamas nessas florestas geralmente atinge as copas das árvores, causando a morte de quase todos os indivíduos remanescentes.

Tal cenário tem sido comparado à “savanização”. Mas mesmo que os arbustos restantes e as árvores escassas sejam parecidas com ecossistemas tropicais que dependem do fogo, florestas tropicais altamente degradadas não têm a mesma biodiversidade nem os valores culturais das savanas. Em vez disso, é mais provável que os incêndios recorrentes acelerem a transição da Amazônia para um ecossistema de baixa diversidade e baixo carbono, com uma pequena fração de seu valor social e ecológico atual.

O problema do fogo

Sabemos que os incêndios florestais não são um processo natural na Amazônia, então por que tantos incêndios estão acontecendo agora? Infelizmente, ainda não está claro o que está queimando exatamente – satélites que detectam incêndios ativos são guias imprecisos e só teremos mais clareza quando as cicatrizes de queimaduras forem mapeadas com precisão em todos os usos da terra. Mas é provável que o aumento atual seja uma mistura de três tipos diferentes de fogo.

Alguns incêndios são originados por “queimadas agrícolas” – quando o fogo é o recurso usado ​​na agricultura rotativa ou para “limpar” o mato que invade pastagens. Mas a quantidade de fumaça e vídeos de Rondônia sugerem que aqueles incêndios estão relacionados a um aumento recente no desmatamento, o que ocorre quando a vegetação cortada é queimada para criar fazendas de gado e dar suporte às reivindicações de terras. 

De forma alarmante, embora esta estação seca seja considerada normal, há evidências de que esses incêndios intencionais levaram a incêndios florestais em florestas em pé, inclusive em reservas indígenas.

Lidar com esses incêndios é complexo, pois muitas das atividades são ilegais ou têm motivação política. Por exemplo, houve um aumento acentuado na detecção de focos de calor durante o recente “dia de incêndio”, e madeireiros ou especuladores de terra já estiveram envolvidos em incêndios florestais em reservas indígenas no passado. Além disso, é importante fazer uma distinção entre esses incêndios ilegais e a agricultura de corte e queima em pequena escala feita pelos povos tradicionais e indígenas da Amazônia. Embora esses incêndios possam escapar para as florestas, eles também são essenciais para manter os meios de subsistência de algumas das pessoas mais pobres da Amazônia.


Floresta queimada para dar lugar à pastagem no município de Novo Progresso (PA), em 2006. A região está no epicentro dos incêndios de 2019. Denúncias indicam uma tentativa dos fazendeiros locais de enviarem mensagem coordenada ao presidente Jair Bolsonaro com o conteúdo “estamos prontos para limpar a floresta”. Foto: Alexander Lees

Quando os incêndios invadem de fato na floresta, eles podem ser combatidos com abordagens de baixa tecnologia, como os aceiros. No entanto, o combate efetivo continua sendo raro e, na maioria dos casos, a ajuda chega atrasada ou nem chega.

Sob a presidência Jair Bolsonaro, os fundos para o IBAMA foram reduzidos em 95%. Isso resultou em uma redução de R $ 17,5 milhões em recursos para combate a incêndios, impacto que foi agravado pela perda do Fundo Amazônia, mantido majoritariamente por Noruega e Alemanha.

Como reduzir a inflamabilidade das florestas

Reduzir os incêndios florestais requer ir além de controlar as fontes de ignição e combater as chamas do fogo. É preciso também incentivar ações que limitem a inflamabilidade das florestas, como, por exemplo, combater o desmatamento, pois ele expõe as bordas da floresta ao microclima mais quente e seco das terras agrícolas e contribui para a redução de chuva.

A exploração seletiva de madeira também desempenha um papel fundamental em tornar as florestas tropicais mais inflamáveis. Ao caminhar durante a estação seca em uma floresta explorada, é possível sentir o calor do sol diretamente no rosto, e a serapilheira (a camada de restos de plantas e material orgânico sobre o solo) crepita embaixo dos pés. As florestas primárias não exploradas, por sua vez, são mais muito sombreadas e a serapilheira permanece sempre úmida. A prevenção de incêndios precisa ser uma condição fundamental do manejo florestal de longo prazo. Isso só funcionará se a extração ilegal de madeira for controlada, uma vez que a madeira barata prejudica a viabilidade do manejo florestal feito com melhores práticas.

Por fim, a própria mudança climática está tornando as estações secas mais longas e as florestas mais inflamáveis. Temperaturas elevadas também estão provocando incêndios florestais tropicais mais frequentes em anos sem seca. As mudanças climáticas também podem estar impulsionando a frequência e a magnitude crescentes de anomalias climáticas, como, por exemplo, os eventos do El Niño, que afetam a intensidade da estação de fogo em toda a Amazônia.


*artigo publicado originariamente em The Conversation, traduzido e editado em parceria com os autores

Jos Barlow é professor de Ciência da Conservação da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. Alexander C. Lees é Professor Sênior de Biologia da Conservação na Universidade Metropolitana de Manchester, também no Reino Unidos. Ambos são fundadores da Rede Amazônia Sustentável (RAS) e têm mais de uma década de experiência em trabalhos científicos na Amazônia, onde atuam em parceria com pesquisadores brasileiros e representantes de comunidades locais.


Como este artigo foi produzido:
O texto é fruto de uma parceria entre a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e a Ambiental Media, e pode ser replicado gratuitamente sob os créditos da Ambiental e da autora.
Os artigos publicados no site da Ambiental são de autoria de cientistas de diversas instituições. Todos os autores são colaboradores eventuais e sua opiniões não representam as opiniões da Ambiental Media. Para ter seu artigo publicado neste espaço, escreva para weare@ambiental.media.